A Guardiã

Credit Photo: Nandhu Kumar

Existem pessoas que são obsediadas por espíritos, algumas outras são possuídas por sonhos e visões de um futuro distante. Uns são possuídos por imagens e necessitam pintá-las em quadros. Alguns outros são atormentados por sons, e portanto fazem disso uma melodia. Eu nunca fui acometido por nenhum dessas maldições ou dádivas das musas. Mas às vezes, em raríssimas ocasiões, sou assombrado por histórias que clamam por liberdade. Sou torturado dentro da minha mente e não consigo fazer mais nada a não ser que sente e escreva.

Essa é uma dessas histórias. 

A guardiã

O ser caminhava pela floresta, perdido sem perceber que assim estava. Às vezes se encontravam com outros perdidos, dividiam o pão e se amavam para combater o frio por um tempo, caçavam juntos e então se separavam. 

Um dia, como qualquer outro dia, pois essa é a percepção do tempo quando estamos vivendo uma história, um rouxinol Klayano cantava empoleirado no galho de uma árvore:

♪  ♫ 

Os olhos fitaram a estrada daquilo que se passou. 

Olhe para os pés descalços e estes lhe indicarão o caminho à frente. ♪

O caminho se faz com ações e nada pode mudar isso, não há jeito de calçar os sapatos e andar léguas pra saber como se andou.

O caminho só poderá ser feito com o pé no chão. ♫ ♪ 

Sem compreender como entendia a letra da música, baixou os olhos para as solas de seus pés e percebeu que era uma caminhante. 

Indagou curiosa ao pássaro: “Qual o seu nome e quem és tu? Quem canta sobre a minha condição, mas não compartilha dela, já que voas pelo céus? ”

Respondeu o pássaro: “Não é de bom tom perguntar o nome de nenhum ser, pois existe um enorme poder nas palavras. Talvez te responderia se me pergunta-se como eu gosto de ser chamada, ainda assim eu incorreria no risco de me aprisionar em algo menor do que sou. Se atente sempre no tom de voz e no que fala. Conhece-te a ti mesmo e descobrirás o nome de todas as coisas, além do teu próprio!”

Dito isso, abriu as asas e voou. 

A caminhante então se pôs a andar na busca do autoconhecimento. Caminhou até que se percebeu fora da floresta e não saberia explicar como, ou em que momento deixara o refúgio das árvores ou quando elas começaram a rarear. Sabia que agora caminhava em um deserto. No solo escaldante do mar de areia pôde compreender facetas de si mesma que não eram agradáveis. Entre os dias de sol a pino e nas noites gélidas de insônia percebia o desequilíbrio e as tortuosidades de suas ações. Percebeu o ser atrapalhado que era: Se tentava consertar algo, quebrava. Se tentava ajudar, atravancava. Se tentava correr, tropeçava em si mesma e caia, se mergulhava num manancial de águas, comia areia por se entregar tão facilmente as miragens dos seus desejos. 

Um deserto é um ambiente hostil, e mesmo contra a sua vontade, teve que ser mais comedida em seus atos, acostumando-se com o que era e voltar-se para si mesma.

Uma noite dormiu e quando acordou ouviu o pio de um pássaro que voava alto e por dentro das nuvens, estava, e não estava mais no deserto. Diante de si, tinha uma casa circular, muros altos a rodeavam, nenhuma janela era visível e uma única entrada era possível. Uma porta do tamanho exato do seu corpo. Forçou a entrada e logo após ultrapassar o portal, outra pessoa com o dobro do seu tamanho entrou no salão onde estava com o corpo totalmente sujo de lama, e logo após, outra com o corpo coberto de relva, e em seguida, mais uma outra totalmente molhada e com algas frescas presas no cabelo. Estranhou pois não tinha percebido ninguém caminhando atrás de si, mas intuiu corretamente que muitos são os caminhos que levam alguém àquela casa, e que talvez essas estradas sejam  divergentes para cada um. 

Foi acolhida por pessoas que se vestiam com mantos alaranjados em seus corpos  e, apesar de toda estranheza do local, foi convidada a banhar seu corpo, se nutrir e lavar os cabelos. Com o tempo, foi harmonizando-se com a rotina e os habitantes. Aos poucos  foi saindo da condição de ser ajudada e passou a ajudar de forma tímida também.

Anos se passaram até que começou a corporificar a prática, sorria para cada pessoa que chegava através da porta e se reconhecia em cada rosto sujo. Queimava o incenso e fazia as orações pontuais. Em algumas tardes, ouvia o canto de um pássaro na janela. Por sua postura, alguns daqueles que chegaram com ela a chamavam de guardiã. Meditou sobre isso e sentiu nascer um desejo: o de servir e se iniciar na tradição.

O ritual de iniciação era anual, já havia presenciado três rituais, mas esse seria o primeiro que receberia seu manto alaranjado. 

No dia da iniciação chegou cedo como foi orientada para receber suas vestes dos mais antigos.O ritual já estava prestes a começar e ainda faltava um irmão. Perguntaram-lhe se poderia ser a guardiã do manto. Aceitou de bom grado, e oxalá  pudéssemos ter a percepção antecipada das causas e condições em curso que são criadas quando fechamos acordos e compromissos.

Sentou em posição meditativa e colocou as vestes ao seu lado. Não passou muito tempo, sentiu que seu corpo estava mal e se dirigiu ao banheiro. Ajudou uma pessoa que estava com dificuldades na porta e ambas entraram. Ao retornar para sua posição, encontrou o irmão que lhe procurava em busca de seu manto. 

— Me acompanhe mestre e lhe entregarei suas vestes. Disse a caminhante.

Contudo, ao procurar no local onde o havia deixado, não o encontrou. O manto havia desaparecido…

O mestre se irritou! 

— Como assim você perdeu minhas roupas cerimoniais? Encontre-as! 

Eu sou a guardiã delas, e prestarei conta mestre! Disse, pois assim fora ensinada a tratar todo irmão como um mestre. E não percebeu que aquela tinha sido a primeira vez que fazia referencia de si mesma como guardiã de algo.

Disse então o mestre de forma impaciente e de forma ríspida:  — Já a encontrou?

Sem responder, saiu da sua presença e solicitou ajuda aos outros membros da casa, uma irmã solícita, emprestou um manto novo.

Mais para sua surpresa o mestre se recusou a vesti-lo! Desejava o dele! 

Ela pensou em questionar a ação do mestre, se seu tom de voz e se sua postura foram adequadas ou não. Chegou a conclusão que refletir sobre as atitudes do mestre não importam muito. E sim com o que poderia ser extraído de aprendizado. Um mestre muitas vezes ensina através de formas paradoxais.

Triste, voltou ao seu lugar na cerimônia e chorou em silêncio! Evitou reclamar da situação em que se encontrava. Reclamações são como orações negativas que atraem mais daquilo que se reclama…

Meditou sobre como o mestre lhe dirigiu a palavra. Sobre o que é ser uma guardiã! Se era enfim digna do posto. 

Um dos maiores poderes que temos é a fala e a emissão da palavra.

A palavra pode levantar ou derrubar, agradar ou desagradar, emocionar ou irritar, trazer para perto ou afastar. Pode ser mel ou fel, tanto para quem ouve como para quem fala.

Num momento ela exprime toda uma paixão, todo um amor, ternura, admiração, respeito, e num outro toda a raiva, rancor, ressentimento, inveja.

A palavra pode estar respaldada na verdade ou esconder a mesma verdade. A palavra não é independente. Ela está sempre atrelada ao tom da voz, à emoção colocada, à respiração, ao ritmo em que é dita, ao olhar, aos gestos… E quando ela é falada em sintonia com tudo isso, vem carregada de um poder muito grande, tanto para o bem quanto para o mal. É uma forma de energia fortíssima!

Por tudo isso a palavra do seu mestre continuava ecoando no seu ouvido, fazendo com que refletisse sobre todos os compromissos em que empenhou a palavra durante sua vida e não cumpriu.

Cada sim que disse quando deveria ter dito não, cada promessa, grande ou pequena que fez. 

Na maioria das vezes, não media o impacto que uma palavra teria. Aprendeu sobre as consequências. Percebeu os resultados das coisas que fizera; notou que estava cega quando concordou com certas promessas; tomou conhecimento das maneiras com que causou danos a si mesma e aos outros.

A palavra é um mantra em ação

Acabada a cerimônia,  viu quando o mestre passou perto de si com o manto que outrora recusou. Sentou cabisbaixa em um canto, quando uma jovem veio lhe agradecer pela ajuda no banheiro. 

— Você é verdadeiramente uma guardiã! Disse enquanto a abraçava e saiu!

Novamente, lágrimas rolaram em sua face.

À noite, durante sua higiene, refletia sobre porque não comentou com ninguém, o que aconteceu consigo durante a cerimônia. Quando nos amamos, aceitamos o imperfeito. 

Por isso pediu perdão a si mesma! 

Perdoar a si exige honestidade, integridade e responsabilidade. É um processo doloroso, sim, mas de reconhecimento. Em meio às inúmeras distrações que são apresentadas, do cotidiano, da luta para alcançar aquilo que esperam de você, perdoar-se é o caminho contrário: é olhar para dentro e buscar em si mesmo a força necessária para seguir em frente. É se abrir para si mesmo, se ouvir e se curar.

Disse em voz alta:

— Errei no passado, erro no presente, talvez erre no futuro. Ainda assim cada um dos meus atos é uma oportunidade de ser a pessoa que escolhi ser. 

E dormiu.

Acordou pela manhã com um rouxinol cantando no parapeito de sua janela! Olhou os poucos pertences a sua volta e quase ouviu os sussurros das coisas em seu entorno dizendo- lhe seus nomes. Ao passar a mão pelo seu corpo durante o banho, reparou que pequenas penas nasciam em sua axila e por dentro do seus cabelos. Se secou com calma e vestiu o manto com deferência, saudou o rouxinol na janela. Antes de sair do quarto deu uma olhada na posição onde cada pertence estava em seu aposento. Não poderia ser uma guardiã sem antes ser de si própria. Para si, para então ser de todas as outras coisas. Essa era sua função e seu novo nome. 

Então fechou a porta. 

——————————————————-

Anthony Lessa é somente um manto perdido!

E essa é uma obra de ficção, como o autor.  Qualquer semelhança com nomes, pessoas, fatos ou situações da vida real terá sido mera coincidência.

2 comentários sobre “A Guardiã

  1. Um dia um belo passarinho perdido, com a asa ferida, o corpo cansado e o estómago vazio procurava um novo ninho. O ninho, desse belo passarinho, não era uma casa, uma parede, nem uma familia composta por pessoas se mensura. Esse ninho da sua imaginação era a leitura. Lá ele podia descansar suas asas e seu cérebro pensante, já que podia se desligar de si, vivendo e sentindo outros. Mas a leitura, para esse pequeno pássaro sempre no cio, não contemplava seu desafio, por isso, ele tinha que ser feito ver. Mais que ler, ele tinha que escrever, assim entrando pra literatura. Escrevendo ele se doa, se registra, se torna imortal através de suas palavras, cantos, cronicas. Esse passarinho encontrou sua casa, seu lar imaterial, imortal e sensível a beça. Esse passarinho meu amigo, que orgulho ter contigo, meu amigo Antony Lessa.

    Curtido por 1 pessoa

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s