A oferenda

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Credit Photo: Anthony Lessa

 

A mãe segurava Zoe pela mão na saída da igreja. Cada passo dado, um esforço. Na perna, a dor estava escondida atrás de cada sorriso que dava.  Zoe percebia isso e recordava das histórias que seu pai contava sobre o acidente, vidas passadas e carmas. Na retribuição do riso, a mentira pesava no canto da sua boca. Talvez fosse uma encarnação do Pinóquio, mais nem por um segundo passou pela cabeça dela entregar a própria irmã Mimim, que nesse momento estava em casa.

Quando chegaram ao lar, ouviu sua mãe dizer:

Leve essa garrafa d’água para ela.

Caminha então, em direção ao quarto com a água abençoada para sua irmã, que estava nesse momento deitada. Seu pai cuidava dela com uma expressão aflita. Colocou uma das mãos em sua testa antes de levantar-se da cadeira ao lado da cama e disse: “Parece que a febre diminuiu! ”

Saiu para falar com a mãe enquanto as irmãs se olharam; um olhar de compreensão, sem palavras, de aventuras vividas, acobertamentos e planos.

Dos pequenos olhares, como roubar biscoitos da dispensa de madrugada, ou lucrar nas trocas de lanche no intervalo da escola, até complexos, como o bem-sucedido plano de fazer com que a avó paterna nunca mais tomasse conta delas, pois fingiram uma guerra com as mãos cheias de manteiga correndo pela casa, deixando a pobre senhora horrorizada.

Já pode para de fingir! -, disse Zoe.

Enquanto sua irmã abria o olho e afrouxava a pressão na mão sobre o peito, onde uma caixa de papelão estava cuidadosamente repousada, e piados tímidos podiam ser ouvidos de dentro dela, Mimim pegunta:.

Ele está bem?

Sim!

Então me ajuda a esvaziar e esconder as bolsas térmicas. Rápido mana! Mimim pula da cama e tira debaixo de si duas sacolas de um plástico grosso, cheias de água quente:

Só se na próxima vez quem ficar com febre for eu… Quase te levaram para o hospital dessa vez! Ambas detestavam as reuniões religiosas dos pais. E faziam o que fosse possível para não ir.

Mimim e Zoe eram irmãs gêmeas, e no alto dos seus 8 anos. Zoe se vangloriava de ser 15 minutos mais velha. Eram idênticas em tudo: moravam com a mãe, autoproclamada serva do altíssimo, viam o pai vez ou outra. Lembravam que eles já foram um grupo familiar unido, até o acidente de carro que mudou tudo. A família deles sobreviveu sem perdas físicas, só marcas e cicatrizes profundas. Desde então as divergências de pensamentos entre seus progenitores só aumentaram.

Na sala, vozes exaltadas eram entrecortadas por breves períodos de silêncios.

Mimim vai até a cozinha, caminha se apoiando na irmã! Zoe a deixa no sofá e ambas olham para os pais.

Ora, ora, nossa pequena já melhorou!

O Senhor é tremendo! Sabia que a água ia curá-la!

Como pode ter certeza disso?  De que água está falando? Não o antitérmico que dei assim que você saiu? E que só começou a fazer efeito agora?

Você é um homem de pouca fé!

Talvez,  ou você que acredita em sementes de mostardas demais.

Tendo as filhas como plateia, os dois se digladiavam através dos olhares, uma luta encenada tantas vezes, onde o outro era sempre teimoso demais.

Preciso que leve as duas amanhã na minha mãe! Prefiro não ir, você sabe o que aconteceu da última vez. Estou desgastada mas ainda oro para ela abandonar aquele caminho de pecado.

Amanhã eu precisava ir …

Foi cortado com um olhar ríspido!

Não seja um pai só de instagram, você vai levá-las na minha mãe! E não se atrase!

Nas férias, sempre visitavam a avó materna, que morava numa casa gigantesca para uma pessoa sozinha. A velha casa foi o local de nascimento da sua mãe, mas que hoje, ela dizia que era um habitat de demônios. 

Muitas coisas dos adultos eram confusas para Zoe e Mimim.  Elas amavam as histórias que sua avó contava sobre herança, perda, ancestralidade, sobre um moço todo vestido de palha, que gostava de dançar, outras sobre um guerreiro com seus machados, ou de uma mulher que carregava um espelho e seduzia.

Gostavam das histórias que sua mãe contava do velho livro de capa preta e apesar do seu pai não saber contar nada tão bem, gostavam quando ele repetia a do príncipe que sentado sob uma árvore e só respirando venceu um monstro. Não entendiam porque brigavam para saber qual era a melhor história ou qual era a verdadeira. Não poderiam ser todas?

Seu pai iria deixá-las alguns dias das férias no sítio da senhora, o que seria motivo de empolgação, pois levariam João, um pintinho adquirido na feira.

Não se apeguem muito, essas merdinhas sempre morrem fácil! E a morte, faz parte de tudo que tem vida, disse seu pai.

No carro, estavam animadas, O pássaro estava protegido dentro do seu esconderijo, uma caixa de sapato forrada com alpiste; e vários furos. Cantaram músicas, entre um sacolejar do carro e pios, vendo os postes e o verde passando até sonolentas, dormirem.

A casa da avó era um universo, com muitas plantas e bichos. Muitos esconderijos e locais para explorar.  Uma galinha e seus seis pintinhos passavam piando ao redor dos seus pés como se as recepcionassem.

Olha! – disse Zoe para Mimim. “Não se parecem com o João?

Sim igualzinho!

Sua avó era uma mulher gigante e sorridente, ficando ainda maior por causa do turbante branco na cabeça. Foram chamadas para tomar um lanche. Seu pai antes de ir abraçou cada uma e disse:

Comportem-se!

Ao que sua avó retrucou:

– As duas juntas? Isso seria impossível! Riu de orelha a orelha: E quando acabarem de comer podem guardar suas coisas e irem brincar, mas cuidado com a hora, não voltem muito tarde.

Após o café, indo para o quarto lembraram que não abençoaram a comida como sua mãe tinha dito, antes de consumir qualquer alimento. Mas, sua avó sempre agradecia pela alimentação farta, e como ela mesma explicou, usava os nomes de ritos antigos, nomes das forças da natureza, os quais os homens desse tempo quase não utilizavam mais.

No quarto, deixaram suas coisas, pegaram uma mochila vazia, para encher de guloseimas na cozinha, a caixa de papelão e partiram para a floresta. Não era bem uma floresta, só um local com muito espaço para plantas, mas na cabeça delas, a casa e o quintal eram um local repleto de aventuras. A casa com suas saídas abstrusas e atalhos quase impraticáveis, se transformavam diante da imaginação delas.

A janela dos fundos dava para uma parede de árvores que impedia a vista para o pasto ermo e entregue ao brejo.  Era uma casa repleta de esconderijos que só elas conheciam e, sabendo que a memória afetiva ampliava nossa estima pela realidade, todos os aposentos, plantas e o quintal daquela casa ofereciam refúgios, tesouros antigos, câmaras secretas e tantos outros abrigos fantasiosos.

O local secreto foi descoberto por acaso nas férias passadas, quando seguiam uma trilha para o riacho. Nesse dia um bode pastava bem no ponto onde a trilha bifurcava. Dizem que todas bifurcações dos caminhos são locais de poder, pois eles demandam decisões. Norte ou sul? Esquerda ou direita? Seguir em frente ou retornar?

Mimim e Zoe fizeram o mais difícil, que foi seguir pelos caminhos não marcados e sem embrenharam pela grama subindo um elevado e descendo pelo descampado. Por terem dito a coragem de sair da trilha encontraram o bambuzal, enorme tanto em altura, quanto circunferência, e que exalava o cheiro das coisas antigas. O vento, ao passar por seus galhos balançando, subindo uma altura incrível, dava a impressão de entoar uma música. Entrar não era difícil, bastava afastar dois galhos e ir se arrastando.  Mas isso nenhum adulto faria, e por isso jamais teria descoberto uma entrada. Dentro dela havia um amplo espaço de terra batida, e bastou alguns tecidos pendurados em cordas e pregadores e um palácio surgia. Eram as guardiãs de uma fortaleza. Dentro dele nenhum adulto poderia encontrá-las olhando de fora.

Como foi ontem com a mamãe?

Mainha falou com o pastor que ao crescer vamos ser missionárias!  

O que é isso?, perguntou Mimim.

Não sei, mas pelo que entendi é alguém que viaja pelo mundo falando do filho de Deus para as outras pessoas.

Não podemos fazer isso! – disse Mimim bem séria!

Porque não?

É fofoca! Nosso pai disse que não podemos falar de ninguém para outras pessoas.

Então seremos guerreiras! -, disse Zoe empunhando um galho de bambu e gritando:  Yaaaaaaaa!

Brincaram tanto que cansaram e adormeceram. Quando acordaram, a luz do sol estava no alto de suas cabeças, cheiro de comida vinha da casa, um ronco na barriga anunciava que talvez fosse hora do almoço. Ao olhar na caixa de papelão João estava duro como pedra, “mortinho da silva”… Rígido, morto como seu pai um dia lhes dissera!

Mimim o retirou da caixa. Zoe teve a ideia de orar, disse que na pregação o pastor falou que se orar com fé, o impossível acontece, clamaram e oraram com fervor, mas o milagre não veio.

É praticamente impossível chorar para sempre! Quando as lágrimas secaram, e o soluço passou. Mimim, sugeriu pedir ajuda as pessoas das histórias da sua avó.

Qual deles? indagou Zoe! O do machado?

Não, não, aquele que se veste todo de palha. Precisamos dar algo que ele gosta, talvez ele traga o João de volta à vida.

Tá, o que podemos dá para ele? Cada um deles gosta de uma coisa diferente…

Que tal quiabo?

Eca, existe gente que gosta de quiabo?

Sei lá, acho que ele gosta mais de pipoca, mas a vovó vai desconfiar se pedimos isso agora.  O que temos na mochila?

— Hum deixa olha aqui! Temos refrigerante e biscoito recheado de morango!

— Aqui, enche o copo.

— Coloco um biscoito ou dois?

— Coloca tudo!          

— Não deite as coisas na terra, arruma direito no pratinho de tartaruga!

— No nosso pratinho preferido?

— Sim, agora ele deve gostar.

— E se ele não gostar?

— Pediremos desculpas, mas não conheço ninguém que rejeita biscoito recheado.

Juntas, dando as mãos, falaram:

— Traz o João de volta! Por favor!            

E colocaram o corpinho dele ao lado da cabeça de tartaruga do prato.

Coincidência ou não, nuvens cinzas apareceram rapidamente no céu. Um trovão ensurdecedor se fez ouvir, um raio acertou um bambu próximo, produzindo uma luz intensa. Chuva pesada caía.

Zoe e Mimim gritaram:

– Aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa.

E só tiveram tempo de pegar a caixa de sapatos e entre outros gritos, correram para a casa se sujando de lama.  Na cozinha, sua avó terminava o almoço:

Meninas, tirem essa roupa molhada logo, vão toma um banho bem quente e voltem para almoçar.

­— Sim senhora! Responderam em uníssono. Correndo para o banheiro.

A chuva, assim como veio, foi embora.

Terminando de arrumar a mesa, a velha senhora não reparou quando uma galinha se aproximou do fogão a lenha, procurando um lugar aquecido. Seis pintinhos a se aninham devagar debaixo das suas asas. Enquanto um sétimo a seguia e observava o movimento de abrir e fechar de asas de uma borboleta pousada na parede, e antes de aconchegar entre os outros, soltou um pio. 

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Esse conto surgiu como presente de aniversário e uma lembrança da infância.

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O estudante

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Credit: Al Margen

O estudante acordou desanimado para mais um início de semana, enquanto escovava os dentes fazia o inventário das coisas a serem feitas. Tinha três imensos artigos científicos pra ler e um livro a ser lido para a prova na sexta. Foi tentado durante o final de semana e já no começo dessa manhã pelas fotos e posts que enchiam seu celular via whatsapp, telegram, facebook e instagram, lotados de frases otimistas, churrascos, festas e trilhas. Fazendo com que aumentasse o seu rancor e o sentimento de vida desperdiçada.

No e-mail do estágio, oitenta e sete requeriam sua atenção. No pessoal, mais de cem, a maioria spam. No caminho da faculdade via pulsando em sua retina, milhares de dados fragmentados, que eram decodificados: sinais de trânsito, roupas, placas de carros, capas de revistas, outdoors e jornais. Ao abrir o Notebook no metrô, na tela dezenas de links, pop-ups tentam distrai-lo, como chamarizes sobre assuntos que mais o agradam: marketing, management, publicidade, informática, variedades e de educação, além de todas as pendências da semana passada. Na sua mochila se encontram três livros: dois que ganhara de presente e um que comprou na semana. Apesar do peso, não os tirava da mochila com medo que fossem se juntar às dezenas de outros livros que estão, há meses, na sua estante em uma fila de espera para um dia, serem lidos.Dentre eles alguns forma comprados há cinco bienais passadas, que ainda estava lá no plastico e com cheiro de novo.

Em sua estante se encontram filmes e documentários imperdíveis que não conseguia ver, e que muitos já viram, menos ele. A lista do serviço de streaming deixou a notificação de lançamento de uma nova série hoje a noite. E sua agenda informava para fazer o relatório mensal, não perder a pré estreia do novo filme de aventura e a consulta ao dentista na quinta.

As vezes se sentia esgotado, cheio e inchado. Como um animal que digeriu além do que podia. Contudo, num mundo competitivo e predatório, sabia que não podia ficar para trás. Mesmo que isso gerasse uma sensação de frustração e incapacidade que, aos poucos, ia se transformando em uma ansiedade cada vez maior.

Vivia na Era da Informação, e caminhava em um oceano de dados, bytes e fatos que, isoladamente, não tinham significado.

Assim aos pouquinhos, definhava em vida.


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Um momento perfeito de escrita

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Artista desconhecido, se souber quem é, Por favor me informe.

…aaaaaaaaaaaaaaaaaaaa!!!

O escritor levantou da cama gritando em pânico! O suor escorria da sua face, a respiração estava ofegante, suas mãos seguravam a cabeça e meio grogue olhava em volta tentando se localizar e entender se o que aconteceu foi real. Estava em seu quarto. Os músculos do corpo tremiam de forma involuntária. Olhou fixamente o teto e não observou nada de anormal.

Arrumou a cama numa tentativa de também organizar os pensamentos, enquanto de soslaio lia ao quadro de planejamento na parede. Lá, em letras garrafais estava escrito a tarefa do dia: descrever um momento perfeito de escrita.

Caminhou em direção ao banheiro, verificando o relógio da cozinha, os ponteiros marcavam 11:11, sem pressa tomou um banho, onde a incômoda sensação de deja vú, continuava a consumir sua mente. Escovou os dentes, lavou o rosto e percebeu pelo reflexo no espelho sua aparência, a barba por fazer de dias, os primeiros fios brancos se escondiam aqui e ali, suas olheiras estavam profundas, seu semblante não era dos melhores.

Andou em direção a mesa onde escrevia na sala, abriu o notebook e olhou com raiva a página em branco, aquela tela recheada de melancolia, se perguntando porque raios alimentava o sonho de ser escritor. Exceto uma vez, quando se sentiu uma personagem de uma história escrita por algum ser, um deus sacana, uma entidade malévola que se divertia com suas tentativas de dia após dia, produzir algo bom.

Depois de olhar a tela por um tempo que parecia horas, decidiu que se não conseguia escrever, ao menos teria um momento perfeito na sua existência de merda.

A perfeição no seu entender era como um círculo, ou um movimento elíptico, como o movimento da lua em torno da terra e desse planeta em torno do sol. Constante e previsível.

Se levantou ao ouvir um som estrondoso: RROOONNNKKK!

O barulho que vinha do seu estômago, não deixava dúvidas. Quando foi realmente a última vez que comeu? – questionou-se.

Na cozinha abriu uma caixa de pizza abandonada, comeu a última fatia fria que residia lá dentro. Pegou o celular e ligou pra pizzaria, a única do bairro que atende 24 horas e aceitava seus pedidos especiais. Pediu uma pizza família de marguerita com manjericão fresco e duas passagens só de ida pra Marte.

Entre o caos que se encontrava a cozinha, pegou uma caneca suja de dentro da pia, lavou lentamente a caneca, a encheu de água e esquentou no micro-ondas. Preparou um chá de Valeriana, um potente sonífero. Batizou a bebida com duas doses de conhaque e a bebericava quando o entregador chegou.

Pagou a pizza, sorriu, ao receber um saquinho de plástico com dois pequenos quadradinhos de papel. Sim, agora o dia será perfeito! Murmurou pra si mesmo.

Comeu sete das oito fatias da pizza, deu o último gole no chá, colocou a caixa na cozinha e de forma delicada introduziu os dois micropontos de papel colorido abaixo da língua e fechou a boca. Semicerrou os olhos esperando o efeito, fixou os olhos no teclado e antes de tocar nas primeiras teclas. Percebeu não sem assombro, que algumas letras se mexiam.  A letra “j” dançava, e achando estranho afastou a cabeça e a aproximou para visualizar melhor o que acontecia. Sua cabeça inclinava em direção ao teclado quando sentiu algo invisível o puxando, até que, ao encostar a cabeça no teclado, foi sugado com todo o corpo para dentro das teclas… Caiu por um longo tempo, parecia que estava na toca do coelho da Alice, letras passavam a sua volta, o ditongo de uma palavra copulava em queda livre, gerúndios o xingavam em sua queda, dois advérbios lhe mostraram o dedo do meio. Quando percebeu que talvez nunca pararia de cair, começou a gritar!

Aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa…

 

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Texto escrito como Exercício número um do ninho dos escritores.

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